Me afeiçoei ao ninho da gaiola e imprudente, fiz refúgio no
que era incômodo. Tive as asas cortadas meticulosa e sorrateiramente. Fui
condescendente e cedi espaço para o vazio me preencher e já não detenho nada em
mim além dessa grande e pesada fissura que cresce tanto quanto me debato.
Não me lembro a sensação de alçar voo, não me lembro como
sair do chão. Mesmo com a porta aberta, mesmo sabendo que aqui só há o abismo
que me consome, tenho medo. Medo estarrecedor de ir. Ir sem saber para onde.
Essa inquietação, a dúvida, não conseguir decidir se o desconhecido é pior do
que o terror que já me é familiar, frustra qualquer motivação que eu tenha esperança
de cultivar.
Perceber que minha ambição pode ferir, que sou a única
seduzida pela brisa que me toca pelas grades, me corrói e a culpa me esmaga.
Pois nenhum de nós pode se mover sem descarregar nosso pesar na bagagem do
outro. Os sentimentos não desaparecem e quem se liberta, condena. É impossível seguir
em frente sem deixar algo para trás, é impossível pairar mais alto sem soltar o
que nos pesa as asas. E é impossível não deixar seu legado sob os ombros de quem
fica.
E mesmo que a empatia me impeça de voar, mesmo que eu queira
incumbir todas as dores apenas a mim, mesmo que eu digira minhas dúvidas e me
negue a importunar outro com meu desespero, o que realmente me mantém cativa e
petrificada no meu abrigo escuro, é a ideia de que ainda que desprendida e
alcançando o céu azul, sem fragilidade e com vigor, eu esteja carregando
comigo tudo o que me abate.
Tenho medo, muito medo, pavor de que mesmo do lado de fora me sinta assim. Tenho
medo de que todo esse tempo, essas grades tenham me protegido e impedido de
descobrir que eu sou meu próprio veneno e minha mente não se abranda pela liberdade. Tenho medo de deixar a gaiola e me descobrir prisão. Tenho medo de ser minha própria prisão. Tenho medo de ser minha própria prisão.
Tenho medo de ser minha própria prisão.