Guia

quarta-feira

Fobia de Coragem


Me afeiçoei ao ninho da gaiola e imprudente, fiz refúgio no que era incômodo. Tive as asas cortadas meticulosa e sorrateiramente. Fui condescendente e cedi espaço para o vazio me preencher e já não detenho nada em mim além dessa grande e pesada fissura que cresce tanto quanto me debato.

Não me lembro a sensação de alçar voo, não me lembro como sair do chão. Mesmo com a porta aberta, mesmo sabendo que aqui só há o abismo que me consome, tenho medo. Medo estarrecedor de ir. Ir sem saber para onde. Essa inquietação, a dúvida, não conseguir decidir se o desconhecido é pior do que o terror que já me é familiar, frustra qualquer motivação que eu tenha esperança de cultivar.

Perceber que minha ambição pode ferir, que sou a única seduzida pela brisa que me toca pelas grades, me corrói e a culpa me esmaga. Pois nenhum de nós pode se mover sem descarregar nosso pesar na bagagem do outro. Os sentimentos não desaparecem e quem se liberta, condena. É impossível seguir em frente sem deixar algo para trás, é impossível pairar mais alto sem soltar o que nos pesa as asas. E é impossível não deixar seu legado sob os ombros de quem fica.

E mesmo que a empatia me impeça de voar, mesmo que eu queira incumbir todas as dores apenas a mim, mesmo que eu digira minhas dúvidas e me negue a importunar outro com meu desespero, o que realmente me mantém cativa e petrificada no meu abrigo escuro, é a ideia de que ainda que desprendida e alcançando o céu azul, sem fragilidade e com vigor, eu esteja carregando comigo tudo o que me abate.

Tenho medo, muito medo, pavor de que mesmo do lado de fora me sinta assim. Tenho medo de que todo esse tempo, essas grades tenham me protegido e impedido de descobrir que eu sou meu próprio veneno e minha mente não se abranda pela liberdade. Tenho medo de deixar a gaiola e me descobrir prisão. Tenho medo de ser minha própria prisão. Tenho medo de ser minha própria prisão. Tenho medo de ser minha própria prisão.

terça-feira

Cinzas

Eu me sabotei, joguei tudo pro alto com a certeza de que me ergueria renovada das cinzas. Bom, as cinzas se tornaram lama e eu me afundei. Eu poderia ter feito qualquer coisa, tinha o mundo em minhas mãos e talvez esse tenha sido meu erro. Acontece que, quando temos confiança demais em nossa capacidade e habilidade de recomeçar, não vemos problema em desistir de tudo e eu o fiz, várias vezes, até que não me restasse mais nada e não previ isso. Me superestimei ou apenas perdi a fórmula? Ninguém saberia dizer.

Eu costumava ter esses olhos que absorvem tudo, que aprendem, imaginam, prevêem, criam. Agora são negros, vazios e desmotivados. Não pude mais achar o que os motiva e a lama está prestes a se tornar cimento e me sepultar onde eu deveria renascer. Quanto mais me debato mais me afundo, tudo se afasta, me perco, esfrio, escureço.  Já nem sei mais do que sou feita, me sinto fluida, homogênea, parte de algo que não se faz inteiro. Sem razão. Como se eu fosse alguma coisa, apenas porque é impossível não ser nada.

E eu continuo desistindo, desfalecendo, mesmo agora sabendo que não posso voltar, mesmo sabendo que tudo o que deixo pra trás não será substituído, deixa de existir, deixo de existir. Partes de mim vão desaparecendo, eu assisto acontecer, mas não sinto. O cimento tem se tornado concreto e o concreto se expande e eu me encolho.  Já não sou vista, já não se ouve minha voz, não se sente minha presença. Não me reconheço e não me reconhecem. As cinzas se tornaram lama, a lama se tornou cimento, o cimento se tornou concreto e eu me tornei as cinzas. 

Adesão absoluta e (in)voluntária do espírito

        Tracei um caminho, 
com a mente pesada de incertezas e desafiando qualquer consequência prevista, mas contente, pois têm sido tempos difíceis para quem quer saber onde vai; o destino valoriza o tédio e o mistério, e desafia-lo é um pecado.
        Não tenho me posicionado diante de muitas coisas ultimamente; a tendência de evitar certezas me consome há tempos, e é por isso que caminhar sozinha tornou-se um ato de rebeldia à minha essência. 
        Ainda me sinto vazia de mim e de tudo, mas começo a questionar até onde minha insistência na imparcialidade é saudável. Não escolher lados e viver à base de réplicas e tréplicas sem conclusão é realmente justificável? Ou é só uma saída que criei para não cometer erros?
        Tenho acordado me sentindo um pouco mais disposta a deixar a segurança de lado, apostar em decisões feitas sem análises prévias e sair da morbidez fria das perguntas. 
        Uma grande parte de mim tem certeza de que ter certezas é estupidez, mas esta outra que vos fala, não se importa, e enquanto não encontro a linha que divide o estranho do natural, vou dar ouvidos ao que me trás essa sensação de conforto sob um curioso frio na espinha. Vou dar ouvidos ao caminho traçado; à rota que me tira a paz, que ironicamente, é a rota das certezas.

quinta-feira

A quem couber

Todos os dias eu me forço a levantar da cama, e tento não pensar no que tenho que fazer nem no que de fato farei. Deixo a mente em branco e tiro o pijama sem brilho nos olhos. Checo o celular, as mensagens, a hora. Em segundo plano na minha mente, começo a decidir quem serei hoje. Sigo para a cozinha até perceber que não tenho fome e já começo a sentir o cheiro do almoço. Apesar de não me lembrar que horas são, volto para a cama. Leio. Escrevo. Durmo. Acordo e começo a cantarolar alguma melodia que me vem à cabeça durante o sono sem sonhos. A tarde paradoxal se estende infinitamente acima de mim e em um instante já é noite. Começo a me vestir para ir a faculdade. Passos lentos até a estação do metrô. Desritmados. Como o resto do dia. Chego a minha sala e percebo que estou com fome. Tenho tempo suficiente para comer algo em algum lugar próximo e neste percurso percebo que estou vazia. Não por aquela ser a primeira refeição do meu dia, mas porque falta estímulo em mim. Me falta um motivo torpe como todos têm para justificar o meu dia deprimente. E tudo aquilo que coloco em segundo plano de manhã começa a explodir em mim. Passo o dia inconsciente. Anestesiada. E naquele pequeno trajeto de volta a minha sala uma dor lateja em meu peito, minha cabeça dói e minha mente ferve. Sempre culpo aqueles rostos. Todos aqueles rostos que mais se parecem um espelho de mim. Todos têm a mesma expressão solitária. Minha dor se torna comum. E piora quando admito isso. Para fugir destes olhares, finjo prestar atenção em uma lição qualquer, enquanto os professores fingem não perceber que estou distraída. Eles fingem ter certeza do que é melhor pra mim e eu finjo acreditar cegamente no que dizem. Na volta para casa, percebo que ainda não decidi quem seria, mas não conseguiria algo melhor do que fui. Tomo remédios para a dor de cabeça e me deito. As lágrimas começam a escorrer desavisadas e o mal-estar aumenta com o nó na garganta. Algumas horas depois tomo entorpecentes para o sono, mais morfina para a dor de cabeça e me forço a deitar na cama, repetindo que preciso descansar, mesmo sabendo que meu cansaço não se deve à rotina, mas à vida. Tento não pensar no que tenho que fazer nem no que, de fato, farei. Deixo minha mente em branco e coloco o pijama com brilho nos olhos. Checo o celular, as mensagens, a hora e largo minha dor latente em segundo plano na minha mente e todos os dias eu me forço a levantar da cama. E finjo não saber que será igual. Finjo que quero. Finjo que vivo.

segunda-feira

Egocêntrica, em termos

Terminei um livro que me fez pensar sobre muitas coisas. Em geral, gosto e detesto quando isso acontece. Eles acabam roubando suas certezas e te expondo de uma forma nada agradável. Fiquei bastante vulnerável desta vez, pois me desnudei no meu pior aspecto, aquele que ainda não havia percebido que tinha. O egoísmo.
Nos ultimos anos feri tantas mentes e corações. Sempre sem querer, quase sempre sem perceber também...
Sou apaixonada pelas pessoas. Todas elas. Nunca sei o que representam pra mim de verdade, mas sei que têm um lugar exclusivo no meu peito - que parece infinito.
Sempre me esforçei para preservá-las comigo, mesmo que no fundo soubesse o quão penoso poderia ser pra elas. - Para alguns, até mortal. Mas talvez por inocência ou em função dessa paixão que me impulsiona, ignorava suas dores, queixas e seus respectivos caprichos enquanto impunha os meus. E sabia, tinha a certeza, que pelo amor que cultivavam a mim, jamais negariam.
Eu não sou uma pessoa má. Juro. Sou apenas fraca demais pra ver qualquer um partir e ao mesmo tempo, insegura demais, desconfiada demais, auto-suficiente demais - mesmo que com estranhos lapsos de pura carência - para me dedicar, exclusivamente, a alguém.
Dessa forma, sempre criei situações muito complicadas e dolorosas para as pessoas á minha volta. E fiz com que acreditassem - não consciente disto, tenho dito - que algo lhes faltava, quando na verdade, algo sempre faltou em mim. - É cruel. Eu sei.
Fui erguendo uma barreira incrivelmente palpável entre mim e qualquer possível envolvimento que exigisse mais do que eu estava disposta a oferecer. Portanto estive sempre preparada, sempre. E quanto aos outros, sempre desarmados, pegos de surpresa pela minha maléfica engenhosidade.
Julguei que assim me protegia e, não minto, ainda penso desta forma. Mas essa postura me trás tanta melancolia, tanta lamentação que este romance do qual vos falo, foi o estopim, para plantar em minha mente a possibilidade de que não ter corrido o risco de ter cicatrizes, talvez não tenha valido o preço. O que seria algumas marcas diante de tantas almas desacreditadas? O que seria uma pessoa tão rude destruída diante de tantos bons corações preservados?
Tenho medo, muito medo, de pensar na influência que tive no que essas pessoas se tornaram. Pessoas que eu tanto estimei, que me estimaram muitas vezes mais e eu não quis cuidar por egoísmo.
Me dói, mas não me arrependo. O egoísmo. Sei que pra mim foi o melhor, pois lamento, lamento muito, choro mas com o coração ainda inteiro.
Só queria ter a dignidade, a simplicidade de poder olhar sinceramente para eles e não me faltar coragem para dizer: ''Me desculpe por ter estragado a sua felicidade'' e meu olhar transmitir com ternura: ''Poderíamos ter sido muito felizes, pra sempre''. Queria deixar claro que a culpa foi minha, mesmo sabendo que apenas isso não é capaz de morfinizar a dor que causei, apenas me traria o perdão e o perdão é a ultima coisa que quero, pois essa melancolia é o que me lembra quem eu sou, e não quero nunca esquecer. Eis minha punição.

A saudade é mesmo cruel

Se afastar de alguém que você gosta trás um sentimento horrível. A pior parte é não saber como isso aconteceu, sabe? Quando foi. Num segundo a intimidade é tamanha que nem se pensa na possibilidade de viver sem, e no outro, dizer 'bom dia' parece impossível. Tanta coisa passa na cabeça da gente mas não conseguimos dizer nada... Existem algumas pessoas assim na minha vida. Pessoas que passaram por ela. Gente que saiu de mansinho pela porta dos fundos da minha alma sem se despedir. Daí quando me dei conta era tarde demais pra gritar seu nome. Já havia pego um táxi, atravessado uma ponte, viajado pra outro continente num bote, avião. - E deixado apenas as metáforas absurdas pra trás. E as lembranças... Ás vezes bate um arrependimento por não ter implorado que ficassem. Por não ter ligado, derrubado a ponte, pego o primeiro voo pra qualquer lugar. Era o que eu devia ter feito. Se não tivessem sido tão sorrateiros... Mesmo assim, lá naquele cantinho abandonado da nossa mente e coração, a gente quer o bem pra eles. Mesmo de longe. Mesmo só nas orações. A gente espera que se deem bem e fica lembrando do sorriso, do som da risada, das manias, do sotaque. E as vezes, de madrugada, se perguntando se um dia pretendem voltar pra tomar de volta aquele cantinho, que sempre, sempre será deles. Aí fechamos os olhos. E nos entregamos de volta á rotina e a ausência dessas pessoas especiais. Que agora entregam seus risos e manias á outros ventos, em outro lugar...

sábado

O ser que anseia e se entrega por inteiro
Se derrama, se desfaz, derrete sobre qualquer alma vazia
Afoga todo bom marujo num sorriso derradeiro
E deixa rastros e cores e saudade

Quem no deserto, no vazio do coração e da mente
De todo outro ser comum
Faz florescer uma centelha de qualquer verdade
Qualquer admiração, motivo, pretensão

Ser em que o peito vazio dilata, respira, renasce
E sente sede, sede de se encontrar
Sede do sol nascente, das estrelas dos desejos
Se retrata, dança, deixa a loucura invadir

Quem faz os danos se fecharem, se tornarem caricias
E na noite se afoga em pura melancolia
Num nefasto perdão de si, uma revogação da pena
Declara a liberdade da alma - do outro.

O ser que limpa toda a blasfemia das palavras
Serve de perdão aos prisioneiros de si mesmos
Faz cativar-se o humano moribundo;
Tem dores e medos e duvidas,
Aos poucos é completamente devorado pelo mundo


quinta-feira

Aquilo que eu não disse

Eu me senti tão feliz de poder estar ali com você. Só de estar. Era o suficiente. Poder te ouvir falar sobre qualquer coisa que talvez amanhã você nem se lembre de ter contado. Poder me sentir mais próxima. Não só fisicamente. Me sentir mais próxima da sua alma, e cada palavra tua me provar que eu já havia mergulhado nela há muito tempo. Poder te olhar nos olhos e te perceber completamente vulnerável, sem barreiras, sem defesas. Poder provar da sua sinceridade. Me sentir capaz de te proteger. Te salvar da realidade; te resgatar da fantasia. Mas. Então veio aquele medo. Entrelaçado no seu abraço estava o medo estarrecedor de esta ser a ultima vez. A ultima vez em que eu te veria. Te ouviria. Aquele abraço em que você disse 'obrigado' e as lagrimas marejavam em meus olhos. 'Obrigado'. E eu me afundei em seu ombro sem resposta. Com aquele desespero preso na garganta. Aquele pressentimento de que você pretendia me deixar de novo. Pra sempre. 'Obrigado'. E tudo o que pude fazer foi afastar aquele maldito pensamento. Fingir que não era real. Ignorar a verdade. Te ouvir respirar fundo e implorar naquele vácuo de tempo-espaço pra que você ficasse bem. 'Fica bem, por favor'. 'Obrigado'.

Só queria ter a certeza de que provaria desse abraço de novo e que ele não seria uma troca de silêncios tristes. Que poderia me sentir feliz só de te ouvir por alguns minutos e ser a única pra quem você contaria. Não por ser a única a saber, mas por ser quem você escolheu. Queria poder te ver sorrindo pra mim. Sem ser com este sorriso triste, carregado. De despedida. Me contento com um daqueles maliciosos. Mas sei que não posso ser tao especial. Sei que depois de recuperado, você vai caminhar para um terreno mais seguro. Longe de alguém que anseia ver através do seu olhar. Sei que você pode usar qualquer um pelo caminho. E sei. Eu não teria tanta sorte. Só queria poder te dizer 'obrigado', te deixar sem palavras e com aquele desespero na garganta. 'Obrigado' e sentir seu abraço responder 'Fica bem, por favor'. Queria me fazer suficiente. Essencial. Marejar teus olhos de lagrimas, fazer teu coração apertar enquanto estou em seus braços. Queria que meu abraço fosse pesaroso, meu sorriso misterioso. Queria lhe dizer 'obrigado'. Mas só consegui rezar em silencio no meio daquela mistura de medo e prazer; fica bem. Fica bem. Me deixa triste, abstinente da sua atenção. Me deixa chorar sem motivo, por você. Deixa que meu coração sara um dia e eu evito me afogar nos seus olhos. Mas fica bem. Fica bem. Fica bem perto.

domingo

(...)

E a gente nem conversou muito, apenas deitei no ombro dele por um impulso descontrolado. Enlacei meus braços em seu pescoço e fechei os olhos sem pensar em mais nada. Com uma mão me segurou pela cintura e com a outra aninhou meu rosto, recostando-se em minha cabeça. As batidas do seu coração era tudo o que eu podia ouvir e minha respiração parecia tão calma, que apenas as leves lufadas de ar que eu soltava em seu ouvido, faziam da minha presença perceptível. A paz daquele abraço era tudo o que eu precisava, aquele momento restaurou toda a minha vontade de viver e era só pra continuar estando ali. Pra mim, esse foi o 'felizes pra sempre' que eu tanto esperei. Um vácuo de duvidas e medos. Um vazio de palavras seguro e confortável. E apenas a lembrança daqueles meus segundos eternos em seus braços, me traz a fé que eu trancafiara em algum lugar do peito. A fé de que um amanhã existe, e vai providenciar pra mim alguma morfina tão forte capaz de me levantar de manhã, sem fazer-me sentir tanta sede de ti.

Eu suplico, de verdade


Meu peito arde, minha garganta se fecha, meus olhos queimam, meu corpo estremece. E eu estou curvada porque não sei mais o que fazer.
Sinto culpa em poder dizer que sinto muito por algo que eu não tenha presenciado. Sei que não sou capaz de entender um pouco de todo tumulto na mente de um infeliz.
Oh Senhor, sei que não temos nos falado muito ultimamente e mesmo que tenha guardado mágoa da indiferença que tenho demonstrado à sua generosidade, peço que não ignore este meu pedido _ perdoe que meus olhos estejam cheios d'água.
Sei que existem pessoas que poderiam fazer diferente se tivessem a oportunidade, se não lhes faltasse tanto. Desculpe, seja lá o que tenhamos nos tornado aqui, foi por nossa conta, mas imploro sua intervenção. Não sei mais como virar o rosto para o chão em nome da minha sobrevivência. Peço perdão por não conseguir fazer algo a favor dos que não têm voz, peço perdão também por aqueles que não usam sua força para exclusivamente proteger os fracos e por não ter ensinado a quem podia o que eu podia. Por não saber como consolar quem sofre, cuidar de quem tem um coração doente, desculpe por não saber lidar com a seca, com a enchente, com a pobreza, com a morte, com a fome, a sede, a dor, o choro e as preces desesperadas. Desculpe por eu apenas sentir sem encostrar meio de intervir.
Há muito eu queria curar o mundo, mas não tenho mais tanta coragem e eu me culpo. Me culpo por ter deixado que se esfriassem minhas lágrimas, por ter adestrado minha revolta e por ter escolhido aquilo que fosse mais conveniente, conveniente pra mim. Me culpo por ter me tornado a personificação do egoísmo, por ter enraizado o mal que na verdade, sempre quis arrancar da humanidade.
Ás vezes acho que a fúria que consome a alma dos homens é irreparável. Nunca vi alguém que levante a mão em favor de algo que não seja a si mesmo, em um lugar que não seja os livros, e isto me enfraquece. Qualquer solidariedade parece tolice num mundo onde cada um vive só.
Senhor, só me empreste de novo aquela força, um pouco daquele incômodo que não me deixava descansar de noite se algo estivesse errado, aquele incômodo que não me deixava sorrir se não fosse pelo sorriso de outra pessoa.
Será que o Senhor se zangou por seus heróis terem sido tão corrompidos e tomados pelo medo?
Sei que não tenho muitas chances, quase nada, ao enfrentar este planeta feroz com minhas mãos, mas te peço um pouco de fé, um pouco da fé que ultimamente não tenho tido.
A inquietação na minha mente me perturba a ponto de eu preferir encarar toda a dor de braços abertos,  do que abusar do peso de minhas pálpebras.
Só peço forças pra dar àqueles que sonham, tudo o que lhes falta para fazer diferente.

Dura Abdicação


Parei de escrever.
Parei, porque qualquer conflito da minha alma era um motivo, uma grande emoção. Agora tenho dúvidas maiores que consomem minha mente e faz todo o resto parecer bobagem.  Parei de escrever porque me sinto menor com o passar do tempo, incapaz. Descubro todos os dias o quanto sei sobre nada e isso me chateia.
Ando aprisionada entre a razão e a fé, e as duas verdades vêm se tornando pra mim, cada vez mais mentira. Estou deixando de acreditar que a vida tem um grande propósito e meu fôlego se esvai junto com qualquer rastro de expectativa.
Parei de escrever porque estou me tornando vazia em cada gole a mais que bebo, cética a cada minuto, nebulosa e melancólica em toda descoberta e desilusão.
Parei. Apenas porque não quero transbordar dubiedade, incerteza, descrença e falta de valor.

Desculpe-me pelo que me tornei.


sexta-feira

Falso brilhante

Sentimentos intensos neste corpo de garota, sensaçoẽs tão grandes, desejos tão pequenos.
Porque deixam uma alma estrondosa guardada em caixinhas de porcelana?
Ela só precisa de um leve estímulo e a música começa a tocar.
As vezes cansa, às vezes se cansa, dança, cativa, encanta.
Lindamente revela-se num desabrochar único de perfeição.
É melodia, massiva, macia. Um número digno de palmas sem fim.
Tropeça sorrindo, feliz, carente, brilhante.
Lágrimas são segredos de presença revelada ao cair da noite,
cada gota, uma pérola; cada passo, um motivo.
Um leve estímulo e seu olhar transparece, derrama, enlouquece. Sua alma rodopia; cantiga e brisa.
Batidas descompassadas compõem a sinfonia estrelada pela gaiola que guarda seu rancor, grito, amor.
A pose, a posse, o reino.
Numa melodia inventada para própria soberania; largada inalcançável, adorada, desdenhosa; dançante. Salta virtuosa; de que me serve?
Se vai sem olhar para o que deixou, o que a deixou. O que deixamos?
A perfeição diante de cada cor, digna de uma imagem à altura.
Presa, fixa, espelhada. Um falso estandarte de liberdade.
Quer ser amada.
A música se explode junto à ela em empolgação, semelhante, audaciosa, ofuscante.
Nada existe acima, nem ninguém.
O silêncio se instala.
Caminha em assobio e lentidão, se esparrama em um fôlego apenas.
Desprezível, guardada, invísivel ela é.
É o fim? A luz tomada de escuridão, não aquece.
Sem saber o que precisa, o que deseja, o que lhe agrada, o que não lhe cabe;
a admiração reclusa em eterna espera.
De que me serve o reluzente, se o existe apenas intocável, escondido, triste?



domingo

Lapsos da realidade

Existem pessoas que estão do meu lado, me dão importância e acreditam em minhas palavras. Elas irradiam, e se parecem com faróis que me guiam para o futuro, quase nunca me perco. Ficam calados quando falo de coisas tristes e estão sempre sorrindo. Sempre que preciso de um sorriso. São pessoas que lutam batalhas e derrubam soldados motivados pelo meu sonho. Desapegam-se de quem são, para olhar através dos meus olhos para o meu futuro. Sabe o quanto isso pode subir à cabeça? Guiar um exército fiel e imutável que vive apenas para o meu bem? Gente que deposita toda a sua fé no que eu acredito sem certeza, e me levanta quando estou de joelhos, para que eu olhe novamente para sol, nascendo pela manhã e me lembre. Me lembre do fardo dos desejos que carrego, quais não permitem que eu descanse por hora. E eu me levanto, cambaleante, quase cega, dando passos largos sem olhar em volta. E eu vou, sem cessar, com um cabresto que me impede de pensar. _ É tudo por uma causa maior. Essas pessoas me deixam mais forte. Mas não dou valor para estas pessoas, não mais. É como se não tivessem uma própria vontade que os mantivesse de pé ao meu lado e a expectativa de que eu consiga aumenta, porque deixa de ser algo para mim, e passa a ser algo para todos eles. E na verdade, não sé uma atitude motivadora. Especiais mesmo, para mim, são aqueles que me fazem esquecer do meu sonho. Como se não fosse tão importante assim, e a qualquer momento eu posso dizer que vou ser um astronauta e na semana seguinte, querer ser um sorveteiro, eles não vão ligar pra isso. Talvez nem me ouvir. Não vão aumentar a pressão que deposito sobre mim mesma, sabem que já é o suficiente. Farão com que eu me foque no presente e nas coisas que alcancei até aqui. Não vão se importar se eu desviar para atalhos, mudar os rumos, arejar a cabeça. Não apoiam sempre, ficam bravos, mal-humorados, chatos. Só sorriem nas horas mais inconvenientes. Me deixam no chão ás vezes, mesmo quando procuro por eles. Talvez por sabedoria, ou talvez por não terem notado minha fraqueza. Pessoas que vão discutir o que é tristeza de verdade, menosprezar minhas dores e criticar minhas alegrias. Me deixarão andar sobre pedras, escalar montanhas e atravessar rios em qualquer direção, enquanto eu respirar. Não vão me impedir de nada, só não me deixarão recuar. Desde que eu não recue, nenhuma escolha é errada, nenhuma direção é perigosa demais. E quer saber o porquê de toda essa indiferença? Porque eles também têm um sonho. Eles sabem o que é lutar por algo, algo que querem fazer sozinhos, para eles mesmos. Então porquê me fariam ser alguém tão obrigado a conseguir? Eles têm a própria vontade e não dependem da minha. E apenas isso, apenas essa busca meio louca por alguma razão, pode qualificar uma amizade de verdade. Eu posso viver para mim, eles podem viver para eles e juntos nós podemos pensar fora desta caixa chamada futuro. Nossos desejos podem se encontrar em algum lugar do mundo, e o que realmente vai importar é o agora. Porque essas pessoas, vão apontar com o olhar, para um tempo calmo e infinito, onde tudo é possível, nenhuma derrota é grande perda e toda vitória é um triunfo, e vou seguir com elas. Com esses bobos, indecisos, implicantes, ciumentos, protetores, que me farão esquecer do meu sonho toda vez que encontrarmos um rio na estrada, uma lua mais atraente ou uma flor colorida e cada vez que pararmos para apreciar o cheiro de chuva ou sentir o calor da manhã, eu vou esquecer, esquecer de tudo. E ir aprendendo ao longo do caminho, que a jornada é mais importante que o objetivo em si, e agora eu desejo que esta jornada seja eterna, apenas para tê-los aqui comigo, me lembrando de esquecer.


De certo modo

          Não acho que a morte seja ruim. Não que eu a queira ou pretenda de forma alguma. Apenas acho, que não seja o fim, entende? Não podemos nos resumir a apenas viver.
          Afinal, o que é a vida? Alguns anos de pureza _ os primeiros, alguns de maldade e outros de razão e sabedoria, respectivamente. Certo. Mas qual é a essência de tudo isso?
          Talvez seja como um sonho do qual você, sem consciência, teme acordar, já que não conhece outra realidade. Mas e se acordar for um alívio? Daqueles, como quando você desperta em plena madrugada e agradece por nada daquilo ser de verdade. Ás vezes até sorri enquanto estabiliza a respiração.
          E ai, nós nos levantamos de uma longa vida e rimos. Todos aqueles anos passam como minutos por nossas mentes e damos risada de todo sofrimento desnecessário. Ironizamos nossa inocência e infantilidade e contamos para alguém que vá rir conosco de tudo isso. Do tudo onde nada era de verdade. E descobrimos na morte, a verdadeira vida.
          Mas pode não ser tão bom assim. Deve existir algum motivo para nos refugiar em um lugar tão enigmático, sem nos lembrar do que vem depois, não é mesmo? Talvez em algum momento fora dessa realidade, tenhamos chorado até dormir, e aí nascemos de olhos fechados; em um mundo fictício; acordamos.
          Já tentou voltar para o mesmo sonho? Talvez viver tenha sido uma experiência tão incrível diante do que estaria por vir, que nos entristecemos ao despertar para o verdadeiro entendimento e imploramos a nossas próprias mentes que nos permita mais algum tempo presos em nosso próprio mundo fechado. O que não irá acontecer. Talvez a morte seja uma liberdade solitária. Espero que não seja tão triste.
          Pra mim?
          Pra mim a vida seria como uma segunda chance. Como se fôssemos almas seletas daquele grupo de anjos que caíram há muito tempo e ao ínvez de partir como eles, nós barganhamos de bom grado nossa punição para algumas décadas por aqui. E somos abençoados. Estamos aqui porque temos a chance de despertar para um lugar melhor algum dia.
          Você acha que conseguiria? Acha que conseguiria provar que ainda é digno?
         Talvez este venha a ser também, um lugar solitário. Mas não há problema. Você não concorda? Quando estamos sozinhos, somos livres para sermos imprevisíveis. A solidão faz da morte imprevisível. Não deveria ser tão difícil aceitar isso.


sexta-feira

Sobre você; mais uma vez

Não sei o que esperava disso, não sei o que esperava de você. Só sei que não era assim que eu imaginava. Acho que fiz planos, não consigo me lembrar deles agora, mas sei que existem em algum lugar. Está satisfeito de alguma forma? Porque eu só sinto algo entalado aqui. Nada mais. Tem algo errado com a gente. Algo errado comigo. Não vou dizer que quero chorar, você pode acabar ouvindo. Te ver feliz apenas me desanima, porque o submeto a duas possibilidades; talvez não seja nada além de provocação, ou talvez, apenas eu esteja sofrendo com isso. Já faz um longo tempo, não acha? Hoje poderia significar um fim, ou pelo menos uma trégua. Acho que isso me deixaria feliz. E fico aqui esperando apenas um sinal, um chamado. Qualquer coisa que me diga que me aceitaria de volta. Me desencorajo porque sei que não errei, e se não errei, qual é o problema? Porque ainda estamos assim? É um capricho seu que arranca minh'alma. A noite vem chegando e parece que é só pra mim que as estrelas não vem junto. Me recolho com este som em meu ouvido, algo que induz essas lágrimas a escorrerem. Você se faz tão necessário que me sinto uma criança com toda sua inocência, indo em busca do que lhe faz falta. Queria eu que fosse tão fácil. Odeio me sentir vítima. Mas odeio quando os outros vem dizer a mim que estou errando com você. Você já me deu as costas, apenas eu vejo isso? Já tentei, por muitas vezes; tentei. O faria eternamente se sentisse que valeria a pena, porque te ter aqui sempre foi muito mais importante para mim, do que qualquer outra coisa. Minhas belas lembranças se devem a você, mas estou exausta. Meu corpo dói, minhas pálpebras tremem pelas noites mal dormidas e já não vejo tão bem assim. Perdi o sentido para muitas coisas. Se eu fingir que estou bem lhe incomoda, deveria dizer algo, apenas isso me encorajaria a lhe contar; estou corroendo por dentro. Um terno olhar já não me arranca um sorriso. Eu estou mal, muito mal. O jeito que você usa para me ignorar, fingir que não estou ali. Você não sabe como é tentar te ouvir, tentar fazer com que você me aceite de volta, e receber, em resposta, o mesmo desdém de sempre. Me machuca saber que sou apenas eu que sinto falta do nosso 'nós'. Pessoas em quem confio me dizem para não desanimar, que tudo volta a ficar bem.
Logo você, que há um bom tempo me disse que nada volta a ser como era antes, nunca mais. Enquanto existirem memórias, não haverá um recomeço.